Dança Cigana Brasileira

                                                                         Foto: Dançarina Diana Arassad

 

Particularidades:

O povo cigano por ser extremamente heterogêneo, com diferenças enormes entre ROMS e KALONS nos costumes, língua, dança e música, não permite definir a dança cigana de forma única. Ela é na realidade um caldeirão de formas e técnicas. A tendência dos estudiosos é escolher um estilo e defini-lo como “verdadeiro”, o qual limita e não exprime a totalidade de formas de se bailar. Tem cigano, por exemplo, que discorda veementemente do toque entre os casados na dança, enquanto diversos outros aceitam e praticam desta forma. E estou falando em ciganos mesmo, e não dos que “viraram” ciganos através de iniciações, batizados ou “acharam” (criaram) um parente distante para “aciganar” (o que no meio da música e da dança seria, infelizmente, 90% dos que se dizem ciganos).

A cultura cigana é riquíssima, pois em sua história de nomadismo, a cada região ou povo que os ciganos interagiam, sempre deixaram um pouco de sua cultura e incorporaram também características destes povos. E isso se refletiu na dança. Por isso são tão ricas e grandiosas as possibilidades de se bailar.

Muitos consideram que aqui no Brasil as características da dança cigana se perderam, devido a forma como muitos não ciganos a praticam, pois há uma enorme confusão de músicas e ritmos, além de vestuários diversos. Mas, por outro lado, a cultura cigana daqui reflete um pouco do que é o Brasil, um país multicultural e miscigenado. E assim como tem pessoas que não são ciganos e deturpam a dança, há muitos não ciganos que praticam a dança de uma forma séria, estudando a forma correta e tradicional de se bailar cada ritmo e acabam por contribuir e divulgar várias vertentes da dança cigana ao grande público e as vezes até mesmo aos ciganos, visto que cada clã tem sua forma de bailar, que conhece desde jovem, mas desconhece o que outros clãs bailam, então este estudo de técnicas acaba por unir conhecimentos e criar uma forma particular de se bailar no Brasil.

Os Roms do Leste Europeu tem seu estilo de dançar, assim como os gitanos de Andaluzia tem seu Flamenco (que é uma linda fusão de dança e música desta região espanhola, com influência dos mouros que invadiram estas terras e dos ciganos que deram alma a este bailado). E aqui no Brasil tudo isto e diversos outros estilos regionais (danças sérvias, turcas, russas e etc.) se fazem presentes. Normalmente procuramos dança cigana na Rússia, e só se encontra a forma russa de se bailar e assim também na Espanha (o flamenco ou a rumba), ou na Europa Central (seus estilços regionais e próprios). Já no Brasil, tanto os ciganos que estudaram outros estilos, quanto professores sérios de dança, pesquisam e praticam diversas formas de se bailar. Tanto que podemos assistir apresentações de dança cigana russa, turca, húngara entre outras em festas ou mostras de danças aqui no Brasil.

A comunidade ROM (kalderash, machuanos, entre outros) são mais fechados e mantém suas tradições bem guardadas. As festas têm poucos gadjos (não-ciganos) e os estilos musicais e de dança remetem as canções sérvias, romenas e do Leste Europeu em geral. Bem parecido com o que os ciganos desta região continuam bailando e escutando nas suas músicas ainda hoje. O Romanes que dançam é muito parecido no mundo todo, mas se colocarmos ciganas romi (do grupo ROM) de várias partes do mundo, mesmo sendo bem parecida a dança, podemos notar, por seus trejeitos e formas de bailar, de qual região são estas ciganas. Creio importante lembrar também mais uma particularidade do Brasil, que além das músicas tradicionais que os ROM dançam, eles curtem muita música latina, tipo salsa, e suas festas tem muito destes ritmos também, aqui no país.

Já os Kalons brasileiros são muito diferentes dos espanhóis, por exemplo. Se na Europa, entre eles o Flamenco reina, aqui houve a incorporação do sertanejo e do forró. As festas são embaladas por estes ritmos e quando dançam os ritmos de sua cultura, as músicas ciganas propriamente ditas, o fazem de uma forma própria. Os braços e giros têm uma forma aflamencada, mas vemos um trabalho de quadril nas calins, que remete a uma dança mais árabe. Reafirmando o que foi dito anteriormente, sobre uma grande fusão de culturas e costumes.

O vestuário utilizado, em geral, nas festas e pela maioria dos dançarinos, tem influência russa. As saias são inspiradas nos modelos russos, mas as danças tem uma inspiração mais da rumba catalana. E, mesmo a contragosto de muitos, não se pode negar a influência de religiões que cultuam a linha cigana espiritual, pois a forma como muitos dançam em seus centros religiosos e como se vestem, também foi de alguma forma responsável pela popularização de vestuários e jeito de dançar por muita gente. E é daí que surge a grande mescla entre ciganos e não ciganos, entre gente que estuda a dança e que “bate saia”. E por este motivo sempre batemos na tecla da importância do estudo das diversas formas de danças ciganas e da necessidade de se entender o que aconteceu e acontece no Brasil, em se tratando da dança cigana e suas partucularidades regionais.

Por isso deve-se ter muito cuidado em “julgar” o que é o que não é uma dança cigana. A não ser que a dançarina escolha se apresentar num ritmo específico, por exemplo, dança cigana turca e utilize figurino e passos de Flamenco. Aí sim, é uma grande confusão e erro, pois em geral vemos gente definindo a dança cigana como uma só forma de bailado, esquecendo que existem muitas danças ciganas, visto que cada cigano, de cada região do mundo tem uma forma distinda de dançar, inclusive algumas muitos diferentes uma das outras.

Será que, assim como existe a dança cigana russa, a dança cigana do Rajastão e tantas outras, não poderíamos afirmar que há, ao menos, uma forma própria dos ciganos brasileiros de dançar? Não seria o momento de pesquisar como se baila nos acampamentos e nas terras do Brasil? E pesquisar sem preconceito ou sem querer definir a dança de uma forma única. Se quando bailam seu romanês, os ROM, como dito anteriormente, tem um forma de bailar que nos permite saber de qual região eles vem, será que se uma ROMI brasileira for dançar na Hungria, por exemplo, poderá por seus trejeitos ou forma de bailar, notar que vem do Brasil? E a inclusão das músicas e danças sertanejas e forró nos acampamentos, inclusive com muitos cantores ciganos nestes ritmos. Seria uma forma de dança cigana dos kalons brasileiros? Se pensarmos que dança cigana é o que os ciganos dançam, então é ?????

Já pude conferir romi dançando, de saia rodada, música de Kalon e vice-versa, o povo kalé bailando música Romá. E isso é lindo! Não é perder a tradição, pelo contrário, é reencontrar origens, que em algum momento da história fez com que estes clãs se separassem.

A cultura cigana, assim como de todas as civilizações, sofre interferências e sempre haverá aqueles que são contra e os que são a favor de novos costumes. Este balanceamento é eficaz no sentido de assimilar com parcimônia as novidades, mas sem perder o tradicional. Se no passado, não “permitissem” o agregar de formas novas de dançar quando os ciganos passaram por Egito, Bálcãs, Europa, não haveria a dança cigana conhecida hoje, pois se bailaria identicamente da forma como os ciganos viviam no norte da Índia. Portanto o bailado cigano sempre foi mutável e agregador de técnicas de diversas outras danças. Por isso fica a pergunta: Será que no Brasil não havaria o acrescentar de nada na dança? Por que só nestas paíse houve o agregar de técnicas e ritmos e por que não teríamos de alguma forma isto no país?

Devemos, com certeza, resguardar as já tradicionais maneiras que cada clã ou região dança, mas também olhar para frente e tentar conhecer e entender as mudanças que a cultura sofre no presente. O mesmo pode-se dizer da música. Em nosso país temos excelentes bandas e cantores que compõe música cigana diferente das já existentes em outras regiões. Criando, portanto, músicas ciganas brasileiras.

Acredito sim que se deva estudar, e muito, as várias formas de dançar. Conhecer ao máximo a cultura cigana de cada região, pois a dança cigana é mais que um bailado. É a expressão artística de um povo que viajou o mundo, semeando cultura e difundindo conhecimentos. Quem baila, não apenas se expressa fisicamente, mas carrega a história de uma etnia milenar. Mas não só olhar para trás e valorizar a cultura cigana no mundo, esquecendo-se da riqueza cultural dos ciganos brasileiros.

Texto: Casal Coimbra

 

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