Entrando no próprio ventre

Quem somos nós sem o ventre feminino? Por ele entramos na vida, dentro dele somos concebidos, formados e dele saí­mos para o mundo. Também da Terra somos todos filhos, enquanto matéria corpórea, nascidos deste planeta, feitos de suas substâncias, como os minerais, as plantas e os animais. A Terra é Gaia, a Mãe-Natureza, e a sua canção é o amor, como dizem os mitos antigos.

Para tratarmos com mais sabedoria dos recursos criativos do corpo e do espí­rito, precisamos vê-los como parte dos valores sagrados que criaram e mantém a vida no planeta.

As pessoas em geral ainda não exercem domínio responsável sobre o seu potencial criativo. Isso se deve predominantemente à falta de informações e vivências dos dinamismos internos. Não se pode viver completamente a força da vida que se manifesta no sexo, por exemplo, apenas com formulações exteriores, anatômicas, ou somente com as informações fisiológicas do corpo. As dimensões subjetiva, impessoal e até mesmo transpessoal do ventre humano precisam ser entendidas e desenvolvidas para que seja superado o sofrimento da pessoa individual, quando ela lida com experiências de relacionamentos sexuais e com o controle dos nascimentos, entre outras tantas questões.

Em seus aspectos mais amplos, o ventre permanece ainda incógnito. Como o caldeirão do alquimista, onde se misturavam e condensavam os elementos, gestando novas formas, o ventre tem-se mantido oculto, reprimido, latente, embora não menos poderoso do que já parece ser sido há seis ou sete milênios.

Como consegue se dominar aquilo que não se conhece bem? Reprimindo, como tem sido a força criativa, perdendo tempo e energia medrosamente. Ou com violência consumidora, “liberando” o ventre na ânsia de devorar o mundo e os outros. Ou ainda, banalizando-o, tornando-o um “não mais do que”.

A força do ventre existe para ser cuidada, desenvolvida e aplicada com objetivos não egocêntricos. Ela é poderosa demais para submeter-se ao consumismo ideológico predominante nesta era pós-industrial que coloca seres e corpos como artefatos eletrônicos, máquinas de produzir prazer oco e sem vida própria. Ela é importante demais para ficar aprisionada nos modelos estáticos de uma beleza fabricada nos laboratórios e nas salas de gerência das potências econômicas. Porque os fabricantes da moda e dos objetos de consumo, muitas vezes também dos fármacos que mudam as funções naturais do corpo e da psique, não percebem o mal que acarretam. Seus protótipos de homens e mulheres “saudáveis”, bem comportados, sem dor, cor ou sabor são antinaturais e tão irreais quanto inatingí­veis. Embora não pretendam, os criadores de produtos que modelam corpos e mentes de modo inatural tiram o gosto de viver de muita gente, que passa a se sentir feia, anormal e doente.

É provável que haja inibições coletivas, sedimentadas no inconsciente desde o final da era das deusas femininas, constituindo uma espécie de paradigma lógico que exclui novas formas de pensar o nascimento e a morte. Ambos são fatos inerentes à vida neste planeta, são duas condições que se opõem, uma no iní­cio e a outra no final da existência e, interessantemente, a sociedade não ensina quase nada de novo sobre essas duas realidades há muito tempo.

O que temos para ajudar a compreender os mistérios da vida e da morte estão registrado nos mitos. Em épocas anteriores viveu-se de maneira mais natural e o contato com o dinamismo criador da natureza circundante parece ter estimulado formulações mentais que levaram aos mitos, assim como hábitos da vida cotidiana. Cuidou-se do corpo em associação com as emoções e as ideias de uma dimensão invisí­vel e sagrada. Dentro daquela atmosfera foi elaborada uma dança sagrada, da qual alguns movimentos nos chegam até hoje. Essa dança expressava a força do ventre humano, lidava com a ânsia de poder, com a sedução e com o medo ancestral da morte. Ela preparava, em suma, para conviver com os elementos da natureza no mundo interior e no mundo exterior, exaltando as energias da criação.

 

Por Lucy Penna

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