Sobre o SENTIR na sala de aula!

Mais uma turma começa…

      Entrando neste segundo bimestre, recebi mais várias turmas novas que estão ingressando no Ventre Brasil. E com apenas dois meses de diferença do início das turmas anteriores, já é possível observar alguns fatores nas alunas iniciantes.

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      Como de costume,  iniciamos as aulas práticas com uma preparação respiratória e meditativa antes do desenvolvimento das atividades corporais. Entender como funciona a respiração, como a fazemos automaticamente e sem consciência, encontrar as estruturas de apoio ao sentar e levantar, tudo são novidades para essas que ingressam. Fazemos práticas respiratórias e há um momento de auto expressão sobre o exercício realizado. Parece tudo muito simples, mas o que venho observando a algum tempo e se confirmou também nessas novas turmas é o seguinte: nossas crianças e adolescentes estão perdendo a noção sobre o SENTIR.

    Isso mesmo, não estão conseguindo perceber como se sentem e nem verbalizar sobre suas sensações e emoções ou sobre si mesmas.

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Quando elas vivenciam atividades que pedem uma conexão consigo próprias e vão expor o seu desenvolvimento em exercícios de autopercepção, elas NÃO SABEM dizer como se sentem, nem fisicamente, nem emocionalmente.Vendo este bloqueio, dou algumas perguntas simples para que elas consigam expressar seu desenvolvimento durante o exercício e mesmo assim, elas demonstram uma grande dificuldade. Quando questionadas sobre como iniciaram o exercício, elas falam de AÇÕES ( cheguei, coloquei a bolsa ali, falei com fulana, fiz isso, aquilo) mas elas não falam de como se sentiam, se estavam tristes com alguma coisa, se estavam cansadas ou pensando em alguma tarefa. Poucas são as que descrevem atividades interiores. Muitas não conseguem expressar o que aconteceu com elas durante o exercício e mesmo dizendo sentirem-se bem ou relaxadas ao final da atividade, não conseguem estender a descrição da sua experiência.

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Em muitas eu percebo que é estranha a sensação de estar sendo questionada sobre si mesma, que não é comum para elas um professor fazê-las pensar sobre isso e nem mesmo as pessoas com quem se relacionam se atentam para essas questões.Parece algo de outro mundo! Mas o que está causando tanta estranheza?

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Nós estamos vivendo numa sociedade baseada em valores cada vez mais externos e as qualidades internas, sensações e sentimentos não estão sendo vistos nesse meio. Essas crianças estão sendo uma prova disso para mim! Vivendo num mundo com turbilhões de informações, está se abrindo uma grande desconexão consigo mesmas, com seus próprios corpos e sentimentos, suas percepções e sensações. O mundo tecnológico invadiu o lazer desta geração que está trabalhando desde muito cedo no mundo mental, esquecendo suas brincadeiras de roda, o correr, o trocar com o outro, o resolver conflitos nas relações de amizades, a empatia, o tocar, compartilhar expressões vivas, gestos e várias outras atividades de interação real com os amigos, que são desenvolvidos nas “antigas” brincadeiras infantis.

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Segundo a Sociedade Acadêmica de Pediatria, cerca de 36% das crianças com menos de um ano de idade já tiveram algum tipo de interação com celulares, tablets, notebooks e dispositivos de acesso à internet, e 35% de crianças entre um e dois anos de idade já fizeram uma chamada nos aparelhos. A pesquisa diz ainda que 60% dos pais deixam seus filhos usarem seus tablets e smartphones enquanto dirigem ou para que elas se acalmem e 29% usam os dispositivos para fazê-las dormir.

Isso é realmente preocupante porque essa geração está crescendo sem estar vivenciando as trocas de relações humanas na infância e estão se desconectando de sua essência interna e da capacidade de centramento, de resolução de conflitos no cotidiano, do diálogo e da habilidade de se relacionar com o outro e com a natureza. Como será uma geração tão conectada na virtualidade e tão desconectada de si mesma? É preciso repensar alguns valores e integrar esses elementos na educação, levando trabalhos de inteligência emocional em paralelo aos demais conteúdos estudados.011

Comecei a perceber essa questão e este tem sido um dos trabalhos que desenvolvo nas aulas de dança com essas crianças e adolescentes. Além de todo o conteúdo de Dança, temos atividades de centramento e autopercepção. Observei até mesmo que algumas alunas com hiperatividade depois desses trabalhos conseguem se concentrar e desenvolver atividades com mais equilíbrio. Alguns transtornos de comportamento vão diminuindo quando a criança percebe que está presente, sente que está sendo acompanhada, e quando são tratadas de forma não invasiva ou violenta, mascarando às vezes alguma ausência afetiva em casa.

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Com o decorrer das aulas a auto-percepção do praticante aumenta, melhora a habilidade de expressar os sentidos, de auto-observação e de análise sobre si mesmo. O trabalho de respiração e meditação ajudam a baixar o estresse dos alunos e melhora a concentração nas tarefas. Há um ganho gradual de consciência corporal e emocional, que auxiliam na preparação do corpo para a criação na dança.

Dessa  maneira os alongamentos são melhor aproveitados com a musculatura mais livre de tensões, a consciência sobre a própria respiração torna a criança e o adolescente consciente dos seus limites corporais e do estar totalmente presente em sua ação.

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As práticas auxiliam na expressão criativa da dança e na sensorialidade sendo tanto um trabalho interno como um trabalho artístico.

É hora de valorizar o SENTIR, esse conhecimento tão valioso na construção de ser dessa garotada! Vamos fazer esses jovens vivenciarem mais, brincarem mais e respirarem melhor! Por um mundo mais criativo e mais humano!

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Texto: Diana Arássad, arte-educadora, criadora e professora do Projeto Ventre Brasil

 

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